Esôfago de Barrett

O esôfago de Barrett é uma condição em que o revestimento escamoso normal do esôfago distal é substituído por epitélio colunar especializado (metaplasia intestinal), geralmente na junção esôfago-gástrica. Trata-se de uma complicação da doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) crônica, em que a exposição prolongada ao ácido e bile altera o tecido esofágico.

Embora a intensidade dos sintomas de DRGE (como azia) não se relaciona diretamente com o risco de desenvolver Barrett, a condição afeta mais homens brancos de meia-idade com DRGE prolongada, obesidade central, tabagismo ou história familiar de Barrett ou adenocarcinoma esofágico.

A maioria dos pacientes com esôfago de Barrett não desenvolve câncer. O risco anual de progressão para adenocarcinoma esofágico é baixo (cerca de 0,3% em casos sem displasia), mas Barrett é o principal fator de risco para esse tipo de câncer.


Diagnóstico

O diagnóstico requer endoscopia digestiva alta com identificação de mucosa colunar no esôfago distal e confirmação histológica por biópsias (presença de metaplasia intestinal).


Rastreamento (Screening)

De acordo com as diretrizes da ACG (2022) e ASGE, o rastreamento não é recomendado de rotina para a população geral com DRGE. Considera-se endoscopia em pacientes com múltiplos fatores de risco:

  • DRGE crônica (>5 anos)
  • Idade >50 anos
  • Sexo masculino
  • Raça branca
  • Obesidade abdominal
  • Tabagismo
  • História familiar

Se o exame inicial for negativo, não há indicação para repetição rotineira.


Tratamento

O controle dos sintomas de DRGE com inibidores da bomba de prótons (IBP) em dose plena é a base do tratamento, reduzindo o refluxo ácido. A fundoplicatura antirrefluxo pode ser considerada em pacientes jovens ou com refluxo volumoso refratário, mas nem IBP nem cirurgia revertem o Barrett ou eliminam totalmente o risco de câncer.

A terapia de erradicação endoscópica é indicada em casos com displasia confirmada (diretrizes ACG 2022 e ASGE):

  • Sem displasia → Vigilância endoscópica (não ablação rotineira).
  • Displasia de baixo grau (LGD) confirmada por dois patologistas → Preferencialmente terapia de erradicação endoscópica, após discussão compartilhada com o paciente (ablação vs vigilância intensiva).
  • Displasia de alto grau (HGD) ou adenocarcinoma intramucoso (T1a) → Terapia de erradicação endoscópica é o padrão, com ressecção endoscópica (mucosectomia ou dissecção submucosa) de lesões visíveis/nodulares, seguida de ablação por radiofrequência (RFA) do segmento remanescente de Barrett. A RFA é a técnica preferida, com taxas de erradicação >90% e baixa recorrência quando realizada em centros especializados.
  • Após a erradicação completa, realiza-se vigilância para detectar recorrências.

Cirurgia (esofagectomia) reserva-se para casos de câncer invasivo, falha múltipla de terapia endoscópica ou pacientes de alto risco cirúrgico inaptos para procedimentos repetidos.


Displasia

A displasia classifica-se como:

  • Ausente
  • Indefinida
  • Baixo grau
  • Alto grau

Representa alteração pré-cancerosa detectável apenas por biópsia. Qualquer grau de displasia deve ser confirmado por um patologista especializado. Displasia de alto grau tem risco significativo de progressão para câncer e requer intervenção.


Vigilância Endoscópica

Conforme diretrizes atualizadas (ACG 2022 e AGA 2025, com abordagem baseada em risco):

  • Sem displasia → Intervalo de 3-5 anos (pode estender para 5 anos em segmentos curtos <3 cm e baixo risco).
  • Displasia indefinida ou baixo grau (em vigilância) → 6-12 meses inicialmente.
  • Pós-erradicação → 1 ano, depois 3 anos, com ajuste individualizado.

O esôfago de Barrett é uma condição manejável com acompanhamento adequado. A maioria dos pacientes mantém qualidade de vida normal com vigilância ou tratamento endoscópico minimamente invasivo.

Dr. João Ricardo Duda
CRM-PR 22961
RQE 15345