A segurança do uso de tiopurinas (azatioprina) e agentes biológicos durante a gestação em mulheres com Doença Inflamatória Intestinal (DII) tem sido uma preocupação frequente tanto para médicos quanto para pacientes. O estudo Pregnancy in IBD and Neonatal Outcomes (PIANO) trouxe informações importantes sobre o impacto do uso desses medicamentos na gestação e nos recém-nascidos.
O Estudo PIANO
O estudo foi conduzido de forma prospectiva e multicêntrica em 30 centros nos Estados Unidos, incluindo 1.712 mulheres grávidas com DII entre 2009 e 2019. Foram analisadas 1.490 gestações completas, 1.431 nascimentos vivos e 1.010 crianças avaliadas em seu primeiro ano de vida.
As pacientes foram divididas em quatro grupos de acordo com a exposição aos medicamentos:
- Sem exposição (uso apenas de antibióticos, mesalazina ou corticoides)
- Expostas a tiopurinas (azatioprina)
- Expostas a biológicos anti-TNF (infliximabe)
- Expostas à terapia combinada (tiopurinas (azatioprina)+ biológicos – infliximabe, adalimumabe)
Os principais desfechos avaliados foram: aborto espontâneo, parto prematuro, baixo peso ao nascer, malformações congênitas e infecções no primeiro ano de vida do bebê.
Principais Resultados
Os dados mostraram que o uso de tiopurinas (azatioprina), biológicos anti-TNF (infliximabe, adalimumabe) ou da terapia combinada não aumentou o risco de:
Malformações congênitas
Aborto espontâneo
Parto prematuro
Baixo peso ao nascer
Infecções neonatais no primeiro ano de vida
Por outro lado, a atividade elevada da DII foi associada a um maior risco de aborto espontâneo, reforçando a importância de manter o controle da doença durante a gestação. Além disso, o parto prematuro foi identificado como um fator de risco para infecções no primeiro ano de vida da criança.
Implicações para a Prática Clínica
Com base nesses achados, recomenda-se a continuidade do tratamento com tiopurinas e agentes anti-TNF durante a gestação, pois manter a doença controlada reduz significativamente o risco de complicações maternas e fetais.
Além disso, interromper a terapia biológica precocemente pode aumentar o risco de reativação da doença. Estudos retrospectivos anteriores já haviam indicado que suspender o anti-TNF antes da 24ª semana de gestação pode elevar as chances de uma piora da DII, o que pode ser mais prejudicial do que a manutenção do tratamento.
Pontos de Atenção
* O estudo PIANO não avaliou o impacto de novos agentes imunobiológicos, como vedolizumabe, ustecinumabe e risanquizumabe, nem de terapias com pequenas moléculas, como tofacitinibe e upadacitinibe.
*Os dados maternos e neonatais foram autorrelatados pelas mães, o que pode levar a algum viés de classificação. No entanto, a robustez do estudo e o grande número de participantes garantem sua relevância científica.
Conclusão
Para pacientes com DII que engravidam, a manutenção do tratamento com tiopurinas e anti-TNFs é segura e essencial para evitar complicações. A chave para uma gestação saudável é o controle adequado da doença, minimizando o risco de reativações e reduzindo a necessidade do uso de corticoides, que podem estar associados a desfechos perinatais adversos.
A decisão terapêutica deve ser sempre individualizada e compartilhada entre a paciente e o médico, considerando os riscos e benefícios do tratamento durante a gestação.
Referência: Mahadevan U, Long MD, Kane SV, et al. Pregnancy and Neonatal Outcomes After Fetal Exposure to Biologics and Thiopurines Among Women With Inflammatory Bowel Disease. Gastroenterology 2021;160 (4):1131-1139
Dr João Ricardo Duda – CRM PR 22961
Gastroenterologista e Proctologista

